Entre fundo bilionário, palanque fora do país e a vitória amarga de um quarto mandato, a conta do jogo de poder em Brasília já tem endereço certo para chegar.
Por Coluna Bastidores & Poder (LC Belém)
Brasília
A apuração chegou ao fim, os discursos de palanque cessaram e a espuma das redes sociais começou a baixar. Mas, nos bastidores do poder em Brasília, a leitura do pós-eleição passa longe da celebração protocolar da faixa presidencial.
Quando se cruza a frieza dos números com o controle de orçamento e a capacidade de veto, o balanço de poder desenha ganhadores táticos muito distintos daquele que subiu a rampa.
Entenda como ficou o tabuleiro real:
O vencedor sem ônus: Valdemar Costa Neto
Enquanto os holofotes miravam o Executivo, o cacique do Partido Liberal (PL) operava a vitória mais confortável do ciclo. Ao eleger uma bancada que ultrapassa os 120 deputados federais, Valdemar garantiu:
* O maior caixa da política: O controle de uma fatia bilionária do Fundo Eleitoral e Partidário, garantindo musculatura contínua para os próximos pleitos.
* Chave de veto: Sem a bancada do PL, nenhuma pauta relevante de interesse do Planalto avança na Câmara. Valdemar não precisa governar; ele arbitra o preço do pedágio legislativo.
* Distância da mira: Sem a responsabilidade direta de gerir um Estado estrangulado e livre da linha de tiro direta do Supremo Tribunal Federal (STF), ele preserva o partido com poder máximo e desgaste mínimo.
A liderança à distância: Flávio Bolsonaro
No campo da oposição, o resultado das urnas consolidou o nome de Flávio Bolsonaro à frente do campo conservador. O senador capitalizou cerca de 60 milhões de votos, assumindo a liderança formal de um eleitorado que vinha fragmentado pela falta de coordenação tática da direita tradicional.
Ao atuar com base no exterior, a estratégia ganha contornos de blindagem:
* Mantém capacidade de articulação e palanque sem a vulnerabilidade imediata ao cerco institucional e às medidas cautelares no Brasil.
* Ganha fôlego discursivo fora do alcance das restrições e da autocensura que hoje dominam a cena doméstica.
* O desafio: Manter a liderança viva à distância sem perder o controle do dia a dia do Congresso para os governadores e lideranças partidárias que estão em solo nacional.
A vitória amarga: Lula e a bomba fiscal
No papel, Lula alcançou o feito inédito de conquistar um quarto mandato presidencial. Nos bastidores econômicos e políticos, contudo, o clima é de apreensão. Trata-se de uma vitória de altíssimo custo:
* Congresso hostil: Diferente de seus mandatos anteriores, o Legislativo atual é amplamente conservador, tem maioria de oposição e não depende do Planalto para liberar emendas orçamentárias.
* Asfixia das contas públicas: O governo herda um passivo de dívida pública crescente e despesas obrigatórias que anulam qualquer margem para investimentos. A margem para concessões acabou.
* Vácuo de sucessão: O PT sai vencedor na cabeça de chapa, mas sem renovação de quadros viáveis para o futuro. Mesmo com o alinhamento institucional de setores do Judiciário, a governabilidade tradicional baseada na distribuição de cargos e emendas perdeu eficácia diante de um parlamento empoderado.
A fatura do banquete: quem paga a conta?
A engenharia do poder em Brasília garantiu que todas as peças do tabuleiro saíssem com algo nas mãos: partidos com fundos recordes, oposição com audiência garantida e o governo com o carimbo na história.
A realidade da economia, no entanto, não perdoa arranjos artificiais. O impasse institucional e o desajuste fiscal cobram pedágio imediato: juros nas alturas, pressão sobre a inflação e fuga de capital produtivo.
No fim das contas, há apenas um derrotado incontestável: o pagador de impostos e o empreendedor. Quem acorda cedo para gerar emprego, produzir e tentar vencer por mérito próprio foi, mais uma vez, escalado como o fiador compulsório de um sistema que só trabalha para sustent
ar os próprios privilégios.
