A tarde descia mansa sobre o planalto da Conquista, tingindo a paisagem com a luz dourada do sertão baiano. Naquela sala onde o tempo parecia obedecer a compassos medievais, dois homens sentavam-se frente a frente.
Aos 61 anos, com a bagagem de quem já enfrentou as trincheiras da comunicação, as redações, as viagens pela Ásia Menor e os corredores frios do poder em Brasília, LC Belém carregava a postura inquieta de um eterno discípulo. Diante dele, com a autoridade dos cabelos brancos, a voz profunda e a alma talhada na pedra da caatinga, estava Elomar Figueira Mello — o menestrel, o arquiteto de versos, o eremita que preferiu a nobreza do silêncio e da terra ao aplauso fácil do mundo.
Ali não era apenas uma visita entre amigos. Era, em essência, o encontro entre Paulo de Tarso e o seu jovem Timóteo.
A Forja do Discípulo
Belém olhava para Elomar com a reverência de quem reconhece um patriarca. Havia percorrido caminhos semelhantes aos passos bíblicos: estivera nas ruínas de Éfeso, na prisão de Filipos e nas pedras do Areópago de Atenas. Tentava, nos seus programas e debates, carregar a tocha da verdade contra as correntes do seu tempo. Mas, ali diante de Elomar, despiu-se do jornalista combativo para calçar as sandálias do aprendiz.
— “Eu sou o aluno, mestre. O senhor é o sábio”, resumia Belém, entre risos e café recém-passado.
Elomar, como o apóstolo Paulo recolhido em sua cela ou em sua tenda, retribuía com advertências firmes e visões agudas sobre a decadência espiritual e moral da civilização. Quando Belém questionava por que tantos homens letrados sucumbiam às ilusões ideológicas do marxismo, o velho mestre descia à raiz metafísica: lembrava que as batalhas da história não são travadas apenas nas urnas ou nas redações, mas no coração do homem e em suas escolhas espirituais.
— “Onde o cavalo da esquerda pisa, não nasce grama”, sentenciava o menestrel, ecoando a firmeza dos antigos profetas. E contava histórias que a história oficial esquecia: dos versos obscuros da juventude de Karl Marx às raízes teatrais das divisões políticas ocidentais.
O Café, a Tinta e a Constituição
Entre uma xícara generosamente adoçada com açúcar — porque para o mestre, adoçante era “doce de rato” — o diálogo transitava pelas dores do Brasil. Belém expunha suas preocupações de homem que via o país endividado, sequestrado pela burocracia e pelo comodismo:
— “O que a gente pode fazer, mestre, para mudar o rumo dessa nação?”
A resposta de Paulo ao seu Timóteo era radical e desprovida de meias-medidas: rasgar as amarras podres das velhas leis e convocar uma nova Constituinte, restituindo ao povo a verdadeira nobreza moral. Belém, por sua vez, complementava trazendo à mesa os projetos de transição institucional, as ideias de liberdade e os estudos que guardava, como quem presta contas das missões cumpridas no front.
A cada intervenção, a dinâmica ficava clara: Belém trazia o diagnóstico do asfalto, das transmissões ao vivo e das perseguições modernas; Elomar devolvia a perspectiva da eternidade, da resistência lírica e da fidelidade aos princípios inegociáveis.
A Poesia como Espada
Quando o peso do mundo parecia saturar o ar, o apóstolo do sertão não brandia armas humanas, mas a poesia. De repente, com o peito aberto e a memória viva, Elomar entoava estrofes em francês de La Marseillaise, recitava o Hino Nacional em latim e soltava o trovão dos versos de Castro Alves em O Navio Negreiro:
“Estamos em pleno mar!… Dous infinitos Ali se estreitam num abraço insano…”
Em seguida, partilhava com o discípulo o fruto inédito de sua pena: a peça Óde ao 6 de Julho, de seu caderno Pétalas do Teatro Alumiôso, onde o poeta agonizante dialoga com a mãe, a morte e a glória. Belém escutava em silêncio absoluto, com os olhos marejados de quem sabe que a verdadeira arte é um ato sagrado de oração e resistência.
O Legado no Areópago Sertanejo
Ao final daquela tarde, o diálogo tocou no futuro incerto: as inteligências artificiais, as gerações que já não sabem caligrafar a própria história e a pressa de um mundo que perdeu o sentido do sagrado.
Mas para Belém, aquele retiro não era motivo de desespero; era reabastecimento. Como Timóteo ao receber a última epístola de Paulo, ele sabia que a sua tarefa lá fora permanecia árdua: combater o bom combate, guardar a fé e não se curvar às conveniências do rebanho.
Ao se despedirem, sob o abraço afetuoso e o cheiro do café sertanejo, ficou a certeza de que a chama não se apagaria. O mestre permanecia firme como a caatinga em tempo de seca, e o discípulo voltava à arena, pronto para transformar aquela sabedoria ancestral em voz para o seu tempo. Ali, em Vitória da Conquista, o Areópago havia revivido.
