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A Anatomia do Caos nas Eleições Bahianas

Publicado em

Por Sérgio Tripper

As campanhas eleitorais na Bahia sempre foram conhecidas pelo calor humano, pela criatividade e pela festa das ruas. No entanto, o pleito deste ano deixou um rastro amargo: em vez de um debate democrático elevado sobre o futuro do nosso povo, o que testemunhamos foi a encenação escancarada da velha tática do “Pão e Circo” — onde a barulho, a provocação e a poluição tentam cobrir a assustadora ausência de propostas.

Enquanto a população clama por soluções na saúde, segurança e educação, a política local transformou-se em um espetáculo de excessos, marcando uma das campanhas mais desreguladas e rasas dos últimos tempos.

A Ausência da Justiça Eleitoral e a Poluição sem Limites

A primeira sensação de quem andou pelas cidades baianas durante este período foi a de um verdadeiro “vale-tudo”. A sensação de ausência ou vista grossa da Justiça Eleitoral permitiu que candidatos rasgassem o código de postura e a legislação.

Os wind banners (flâmulas publicitárias) tomaram conta de calçadas, canteiros e esquinas. Além da poluição visual agressiva, o descaso virou problema de saúde pública e segurança: pedestres obrigados a caminhar pela pista, motoristas com o ponto de visão bloqueado e relatos de acidentes e incidentes no trânsito provocados pela estrutura largada nas vias públicas.

Ainda no asfalto, o abuso sonoro ditou o ritmo do estresse urbano. A Lei Eleitoral é clara: carros de som só são permitidos em carreatas/caminhadas ou passeatas, respeitando o limite sonoro e com formação mínima de seis veículos. O que se viu, porém, foram “mega carros de som” transitando isoladamente a qualquer hora do dia, ensurdecendo bairros residenciais e centros comerciais impunemente.

Redes Sociais: Vitimização, Provocação e Mitos Imitados

Nas telas dos celulares, a baixaria ganhou contornos de estratégia. Candidatos usaram as redes sociais não para apresentar planos de governo, mas para incitar a violência real. Casos de postulantes invadindo universidades para provocar opositores e gerar cortes de vídeos virais escancararam a busca pelo engajamento a qualquer custo.

A hipocrisia também marcou presença no ambiente virtual:

  • A falsa censura: Candidatos foram às redes chorar o “bloqueio” de perfis, omitindo do público que a sanção ocorreu por descumprirem a regra básica de registrar a conta oficial junto ao TSE.
  • O milagre da última hora: Políticos que passaram quatro anos sumidos do caixa/orçamento e da atuação comunitária reapareceram misteriosamente “fortes” e com recursos para impulsionar conteúdos no ápice da campanha.
  • Apadrinhamento de obras: Representantes com mandato vigente usando a internet para se vangloriar de projetos que ignoraram durante quatro anos.
  • A ilusão do “Efeito Bolsonaro”: Uma legião de candidatos tentando replicar o fenômeno de 2018 — pregando que “sem dinheiro, apenas com o celular na mão” chegariam ao poder —, mas entregando apenas conteúdo vazio, sem a mesma organicidade e transbordando amadorismo.

Famílias no Poder: Os Clãs em Decadência

Outro sintoma claro da crise política na Bahia é a desespero dos velhos clãs familiares. Diante do desgaste de suas próprias imagens, oligarquias em decadência tentam perpetuar sua influência impondo à população esposas, filhos, sobrinhos, noras e genros.

Vendidos como “grandes gestores” ou a “continuidade do trabalho”, esses herdeiros políticos chegam às urnas amparados apenas pelo sobrenome, ostentando uma competência técnica quase sempre duvidosa e tratando o bem público como herança de família.

A Farsa Ideológica e a Dança das Cadeiras

Enquanto berram nos microfones a cada quatro anos que “trabalharam como nunca por nossa terra”, os políticos confinam o eleitor em uma discussão estéril entre ‘Direita’ e ‘Esquerda’. Uma polarização idióta, importada do debate nacional, que serve como cortina de fumaça para esconder que, no âmbito local, as diferenças ideológicas evaporam quando o assunto é o poder.

Vimos candidaturas se juntando às mais heterogêneas e contraditórias correntes partidárias. Adversários históricos apertando as mãos e coligações bizarras sendo formadas da noite para o dia — provando que a única ideologia real de muitos é garantir a eleição e o loteamento de cargos.

O Saldo: A Falta de Futuro

No fim do espetáculo, quando os fogos apagam, os santinhos viram lixo nas ruas e os carros de som desligam seus alto-falantes, o saldo para o cidadão baiano é devastador.

Falta de propostas concretas. Falta de lisura nos debates. Falta de um plano real e estruturado para o futuro das nossas cidades.

A política do Pão e Circo distribuiu muito barulho e pouca substância. Cabe agora ao eleitor, o verdadeiro dono do poder, decidir se continuará aplaudindo os palhaços desse circo ou se exigirá respeito, responsabilidade e compromisso com o futuro da Bahia.

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