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InícioArtigos e OpiniãoDr. Gustavo CarvalhoAté onde vai a coragem de um pai para salvar um filho

Até onde vai a coragem de um pai para salvar um filho

O pai que virou uma máquina para manter o filho vivo e ajudou a mudar a história da cirurgia cardíaca. Este conto foi elaborado pelo Dr. Gustavo Carvalho e Fernando Raposo, com o auxílio da "AMIGO INTELLIGENCE", e é baseado em uma história real.

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A história do homem que virou máquina para manter o filho vivo, escrita pelo cirurgião que venceu a própria morte.

Existe uma sala de cirurgia, em Minneapolis, no ano de 1954, em que um pai está prestes a se tornar uma máquina.

E não é metáfora.

O filho dele tem apenas treze meses. Chama-se Gregory. É franzino, dorme com seus bichinhos de pelúcia, e na véspera da operação acordou de bom humor sem saber de nada. Dentro do peito pequeno, porém, há um buraco no coração. Para ser exato, e a exatidão aqui importa, Gregory tem uma comunicação interventricular, a famosa CIV, um furo na parede muscular que deveria separar em duas metades estanques as câmaras inferiores do coração. Por essa fresta, o sangue escapa de um lado para o outro a cada batida, obrigando aquele coração minúsculo a trabalhar pelo dobro. É um defeito que, naquela época, nenhum cirurgião do mundo sabia consertar. Gregory estava morrendo, e o homem que vai operá-lo dúvida que ele chegue vivo ao fim do ano.

O problema não era apenas chegar ao coração. Os cirurgiões da época sabiam abrir o peito, sabiam tocar o órgão, sabiam enxergar o defeito. O que ninguém sabia era como manter uma criança viva durante os preciosos minutos em que o coração precisava ficar aberto e parado. Faltava uma máquina. E sem ela, abrir o coração de uma criança era apenas uma forma elegante de assistir à morte chegar.

É aqui que entra o Dr. Clarence Walton Lillehei.

Para entender a coragem absurda do que ele estava prestes a fazer, é preciso voltar quatro anos. Em 1950, um dia depois de terminar a residência, aos trinta e um anos, Walt apalpou um caroço no próprio pescoço. Era um linfossarcoma, um tumor maligno do tecido linfático, alojado na parótida, a glândula salivar que fica logo abaixo da orelha. Deram-lhe entre cinco e dez por cento de chance de estar vivo dali a cinco anos. Quem o operou foi seu próprio mestre, numa cirurgia de doze horas que incluiu um esvaziamento cervical radical, a retirada minuciosa das cadeias de gânglios linfáticos do pescoço, seguida de radioterapia. Ele sobreviveu e saiu da experiência com o pescoço para sempre torto e com uma certeza gravada a ferro: o impossível, na medicina, quase nunca é impossível de verdade. É só ignorância temporária, esperando alguém com coragem suficiente para desafiá-la.

O homem que ia colocar duas vidas simultaneamente sobre a mesa de cirurgia já havia, ele mesmo, atravessado a morte e voltado vitorioso.

A ideia que ele teve parecia menos medicina e mais heresia. Se ainda não existia uma máquina capaz de manter a criança enferma viva, talvez um outro ser humano pudesse fazer esse papel. A inspiração veio de onde menos se esperava. A esposa de um colega estava grávida, e foi olhando para aquela barriga que a equipe percebeu uma verdade simples e tonta de tão óbvia. A natureza já fazia aquilo o tempo inteiro. Toda mãe, através da placenta, é a máquina divina que suporta a vida do filho que ainda não nasceu.

Então fariam o mesmo, e deram um nome a isso: circulação cruzada. Ligariam a circulação do menino à de um adulto por meio de cânulas, tubos finos costurados aos grandes vasos da virilha. O sangue sairia do pequeno Gregory, entraria no corpo do adulto, seria limpo pelos pulmões dele e bombeado pelo coração dele, e voltaria oxigenado para o filho. Por alguns minutos, os dois corpos funcionam como um só organismo, e o adulto seria, em termos crus, o oxigenador biológico da criança.

E o adulto que se ofereceu foi o pai!

Aqui a história deixa de ser apenas científica e passa a doer. Porque naquela sala não havia um paciente. Havia dois. O menino, que precisava ser salvo. E o pai, Lyman Glidden, mineiro dos bosques do norte de Minnesota, perfeitamente saudável, que aceitaria sangrar e arriscar a própria vida para dar ao filho a mínima chance que nenhuma máquina no mundo poderia oferecer. Por isso a técnica ganhou um apelido brutal. Era a única operação da história com potencial para duzentos por cento de mortalidade. Pela primeira vez, a medicina apostava duas vidas para tentar salvar uma.

E por que aquele casal aceitaria semelhante loucura?

Porque já haviam feito um penoso velório antes. Anos atrás, perderam sua filha, LaDonnah, nascida com exatamente o mesmo defeito de coração. Ela resistiu bravamente até os doze anos. Numa noite de setembro, morreu de repente, dormindo, e foram eles que a encontraram de manhã, fria e rígida na cama. Quando Lyman e Francês disseram sim ao impossível, não era por audácia. Era mais que puro amor paternal: era para não enterrar o mesmo defeito duas vezes.

Não havia comitê de ética em 1954. Não havia advogado a consultar. Havia um pai descendo para a sala ao lado, prestes a virar coração e pulmão do próprio filho.

Na manhã de 26 de março, um maqueiro falou baixinho com o pequeno Gregory sobre a viagenzinha que ele faria, seguro em seu berço, com seus brinquedos. Um andar abaixo, preparavam seu pai, que, ansioso, esperava por participar da aventura. Dr. Lillehei abriu o peito do menino, e o pequeno coração cor de ameixa surgiu entre os pulmões. Ao pousar a mão sobre ele, sentiu um frêmito, a vibração palpável que o sangue faz ao escapar em alta velocidade por um orifício onde não deveria, um ronronar errado sob a ponta dos dedos. Ele olhou, sentiu, confabulou e disse a frase que abriu a era moderna da cirurgia cardíaca. “Está com bom aspecto. Podem trazer o pai agora.”

Conectaram os dois. Durante dezenove minutos, enquanto o coraçãozinho enfermo ficou parado, aberto e em silêncio, foi o corpo do pai que manteve o filho vivo. Dezenove minutos em que o sangue de Lyman correu por Gregory, em que um homem respirou e pulsou literalmente pelo outro. Nesse intervalo, Dr. Lillehei fechou o buraco do septo com as próprias mãos, ponto a ponto. O impossível tinha sido realizado. O pequeno coração voltou a bater e a impulsionar o sangue para os pequenos pulmões.

A cirurgia funcionou.

Foi um sucesso absoluto.

E é agora que a história faz o que as histórias bonitas demais nunca têm coragem de fazer.

Onze dias depois, infelizmente, Gregory morreu. Não do coração, que a autópsia encontrou perfeitamente corrigido, a CIV enfim selada com perfeição, mas de uma pneumonia, uma infecção nos pulmões fragilizados. O defeito que matara a irmã e condenara o irmão estava, enfim, vencido. Lamentavelmente, a criança, apesar da perfeição da cirurgia, não foi salva.

A primeira grande vitória da cirurgia cardíaca não foi coroada pelos louros: chegou disfarçada de fracasso.

Pareceu imprudência. Pareceu loucura. Pareceu uma daquelas ideias que só seguem vivas porque alguém se recusa a aceitar que a morte tenha sempre a última palavra. E Dr. Lillehei, que conhecia esse lugar por dentro, pois já tinha sido o paciente com menos de dez por cento de chance, não recuou.

Seguiu adiante.

Menos de um mês depois, em abril, outro menino, de três anos, entrou na mesma sala. O pai, de vinte e cinco anos, deitou-se ao lado para ser a sua máquina. Dessa vez, a criança sobreviveu. E não apenas sobreviveu. Cresceu. Virou adulto. Gozou uma vida inteira e plena, de sessenta e quatro anos a mais do que qualquer médico jamais ousara prometer. Morreu somente em 2018, aos sessenta e sete. E, antes de partir, fez um último gesto de uma elegância que arrepia. Doou o próprio corpo ao laboratório da Universidade de Minnesota, para que aquele coração histórico, o primeiro do mundo a ser consertado e a sobreviver, continuasse ensinando os cirurgiões que viriam depois. O menino que não deveria ter visto a adolescência devolveu, no fim, o presente que recebera.

No ano seguinte à operação de Gregory, a equipe fez mais de quarenta cirurgias de coração aberto, corrigindo defeitos que até então eram sentenças de morte para os pequeninos enfermos, como a tetralogia de Fallot, o conjunto de quatro malformações que deixa os bebês azulados, os chamados cianóticos. Da porta que o Dr. Lillehei escancarou sairiam ainda o marca-passo portátil, o pequeno aparelho que assume o comando elétrico quando o coração esquece o próprio ritmo, e as primeiras próteses valvares, válvulas artificiais para os doentes cujas válvulas cardíacas falhavam. Entre os cirurgiões que ele formou estava um sul-africano chamado Dr. Christiaan Barnard, que em 1967 realizaria o primeiro transplante de coração do mundo. O órgão até então sagrado demais para ser tocado virou, de uma vez, algo que se podia abrir, entender, corrigir, substituir e devolver à vida.

Mas o mais bonito desta história é que a técnica do Dr. Lillehei destrói a si mesma, de tanto dar certo. Já em 1955, ao lado de Richard DeWall, ele criou o oxigenador de bolhas, uma máquina que borbulhava oxigênio dentro do sangue para limpá-lo do gás carbônico e devolvê-lo arejado, exatamente o trabalho que antes só os pulmões de um pai sabiam fazer. Era o embrião da moderna circulação extracorpórea, o coração-pulmão artificial sobre o qual repousa toda a cirurgia cardíaca até hoje. A partir dali, nenhum pai precisou mais virar máquina. A perigosa circulação cruzada, gesto sublime e desesperado, tornou-se totalmente desnecessária e obsoleta. E isso foi sem dúvida a maior vitória de todas.

A engenhosidade não parou aí. A técnica avançou tanto, mas tanto, que hoje um buraco como o de Gregory pode ser fechado sem sequer ser necessário abrir o peito, sem se parar o coração, sem se arriscar ninguém. Por uma simples punção venosa femoral, uma agulha numa veia da virilha, um cateter finíssimo sobe pelos vasos guiado por imagem de raios X até dentro do coração e ali libera um pequeno dispositivo que oblitera o orifício por dentro, num procedimento de sala de hemodinâmica que dura pouco mais de uma hora. A criança gravemente enferma vai para casa curada no dia seguinte, com um curativo na perna. O menino que infelizmente morreu nos deu um mundo em que outra criança, com o mesmíssimo defeito que ceifou a vida de sua irmã, sai andando do hospital sem nunca ter tido o peito aberto.

Esse é o ápice da herança de Gregory. A operação mais sublime que a medicina já inventou deixou de ser necessária, justamente porque deu certo.

E ainda assim, a aposta dos duzentos por cento não desapareceu. Apenas mudou de endereço. Ela continua viva, ainda hoje, em toda cirurgia em que uma pessoa saudável se deita na mesa e arrisca a própria vida para que outra possa continuar vivendo. É o caso dos transplantes entre vivos. O transplante de rim, em que um doador entrega um dos seus dois rins. E, sobretudo, o arriscadíssimo transplante de fígado intervivos, em que um pai ou uma mãe se submete a uma hepatectomia, a retirada de quase metade do próprio fígado, para que um filho receba aquele fragmento hepático e volte a viver. E não é figura de linguagem: a doação de fígado entre vivos carrega um risco de óbito de um indivíduo saudável de cerca de 0,2% (23 mortes em 11.553 doadores no maior levantamento mundial), baixo mas real e bem documentado, o lembrete silencioso de que ainda hoje há quem se deite na mesa sabendo que pode não levantar. É de uma beleza vertiginosa, e guarda um detalhe que parece desenhado por um poeta. O fígado seccionado se regenera. As duas partes, a que ficou no doador e a que foi para o filho, voltaram a crescer quase ao tamanho original em poucos meses. Dois corpos de novo ligados por um único órgão, como na velha circulação cruzada, só que agora para sempre.

Vale lembrar que essa semente foi plantada no Brasil. Foi o Dr. Silvano Raia, na Universidade de São Paulo, quem realizou em 1988 o primeiro transplante de fígado intervivos do mundo, relatado nas páginas da revista The Lancet. E, como Dr. Lillehei diante de Gregory, seus primeiros casos infelizmente não sobreviveram. Mas a porta que ele abriu era verdadeira. Do outro lado do planeta, no Japão, onde, por motivos legais, não havia doadores falecidos, foi que a semente brasileira floresceu. O professor Tanaka, na Universidade de Kyoto, pegou aquela ideia arriscada e a transformou no triunfo silencioso e cotidiano que hoje salva milhares de vidas pelo mundo.

Os Glidden eram pobres demais para pagar uma lápide para o pequeno Gregory. Décadas depois, alguém que se apaixonou por essa história custeou a pedra e escreveu nela o epitáfio mais exato já gravado no túmulo de uma criança.

“Seu pequenino coração mudou o mundo.”

Porque foi isso que ele fez. O coração que parou por dezenove minutos abriu a porta por onde milhões de outros corações passariam, batendo, depois dele.

Às vezes a história da medicina não começa com uma cura. Começa com uma perda, com um pai que emprestou o próprio corpo por dezenove minutos, e com um homem de pescoço torto que já tinha olhado a morte bem de perto e decidido, por todos nós, não recuar. E cada vez que hoje uma criança volta para casa viva e saudável, com apenas um pequeno curativo na virilha, ou que um pai entrega parte do próprio fígado para que o filho viva, é aquela mesma aposta de amor que continua, em silêncio, e permanecerá dando certo.

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• Gustavo Carvalho, MD, MBA, MSc, PhD – Cirurgião Geral, Professor Adjunto da UPE e Consultor de IA na Amigo Tech.
• Fernando Raposo – Engenheiro Civil, Fundador e CEO da Amigo Tech

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Todas as Referências verificadas no PubMed (PMID/DOI). História real, baseada em fontes públicas verificadas nas referências. Caráter informativo e literário; não constitui aconselhamento médico.

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